Thursday, November 29, 2007

SVETLANA MORREU POR CAUSA DE UM PROGRAMA DE TELEVISÃO?

Svetlana tinha 30 anos de idade. Nascera na Rússia e vivia em Espanha.

Morreu ASSASSINADA pelo seu ex-namorado, na passada terça feira, dia 27 de Novembro, cinco dias depois de ter participado num programa de televisão onde o agressor também estava.

Eles tinham vivido juntos ao longo de quatro anos. Uma história de amores e desamores onde a violência já era uma prática corrente. Ela tinha conseguido coragem para o deixar há cerca de mês e meio.


Ricardo, o agressor e agora assassino, foi pedir-lhe para reatarem o namoro ali, como agora se usa, “ao vivo e em directo”. Começou por dizer que a separação se tinha devido a problemas financeiros. Depois foi-se aproximando da verdade e reconheceu que era “ciumento de mais” e até “costumava vigiar a namorada”. Mas declarou a Svetlana, perante uma audiência de milhões de espectadores, “Você é tudo para mim!”


Svetlana possivelmente pensou que estaria em segurança ali, numa estação de televisão, onde todos a viam, e recusou o pedido acrescentando que “nem sequer queria manter um relacionamento de amigos”.


Cinco dias depois, Ricardo foi a casa de Svetlana e esfaqueou-a no pescoço.


Em Espanha existe agora uma onda de indignação tão grande contra este tipo de programas e contra a forma como a Comunicação Social trata estes temas que até Encarnacion Orozco, responsável do governo espanhol pelo departamento para a Violência contra as Mulheres, não só criticou como afirmou que “os programas têm de se preocupar em fazer uma maior investigação sobre cada caso”.


E Manuel Ángel Vasquez, presidente do Conselho Audiovisual da Andaluzia, teve a coragem de afirmar que “Estamos a assistir a um processo de degradação progressiva do meio de comunicação que é a televisão, tudo em nome das audiências. A dinâmica do ‘vale tudo’ está a levar a um jogo diabólico”.

Este especialista apelou ainda para que se evite o tipo de programa “baseado na surpresa e na exaltação do mórbido”, e pediu que no mesmo plateau não se juntem duas pessoas, onde uma é a maltratada e a outra a maltratante.


Será sempre precisa uma morte,
o assassínio de uma inocente, para que a Comunicação Social reflicta sobre os limites que deve ter em conta, sobre a seriedade e o conhecimento com que devem ser tratados determinados assuntos?

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“O CIÚME É PROVA DE AMOR!”

A história é de hoje e vem relatada num dos nossos jornais diários. Um homem, com a profissão de “Segurança”, leva a mulher com quem vive para longe de casa, para um pinhal, para assim lhe poder bater sem que os vizinhos ouçam!

Vivem juntos há apenas um ano e ele tem “ciúmes obsessivos”. São esses “ciúmes obsessivos” que o levam a bater na mulher de quem diz gostar. São esses “ciúmes obsessivos” que o levam a ameaçá-la, a coagi-la. A obrigá-la a manter uma relação de medo, de terror mesmo.


O ciúme é visto até, por vezes, como uma grande prova de amor, como se fosse inseparável e parte integrante de uma vivência a dois.

Há ainda na nossa sociedade a ideia de que “só quem não ama de verdade não sente ciúme”!… Lembram-se desta frase, não lembram? Aí está até onde ela, quase sempre, leva quem a segue à risca.

O ciúme é aquele sentimento doloroso de ameaça de perda de alguém que se possui.

E repare que eu escrevo “possui” e não “ama”. Porque quem ama, confia, acredita e quer bem.


O ciúme não é característico de apenas um único género, mas, neste caso, estamos a reportar-nos ao ciúme do homem, concretamente.

Podemos aceitar que neste homem existe uma falta de competência emocional para não permitir que esta emoção (o ciúme é uma emoção) prejudique o relacionamento com a sua parceira, mas também não podemos desculpabilizá-lo só porque ele se aproveita desta crença geral de que o ciúme é normal e até desejável, para maltratar, dominar e causar sofrimento à sua companheira.


O ciúme, ou melhor, quem sente o ciúme, usa várias artimanhas, constrói armadilhas.

É o telefonema constante, breve, “apenas para te perguntar onde estás?”. É a “inocente” pergunta do “Com quem almoçaste? Liguei-te às duas e ainda não estavas no escritório.”

São pormenores que, se não “devidamente” respondidos causam amuos e pequenos arrufos que se vão depois agravando.


Tudo começa assim. E, às vezes, sem que as mulheres reparem e até sentindo-se lisonjeadas pelo interesse, começam a entrar na espiral do tal “ciúme obsessivo” do “nosso” segurança de hoje que acabou a bater na mulher escondido num pinhal, para que ninguém soubesse e o pudesse acusar.


Ele sabia que podia ser acusado pelos vizinhos, apenas eles, porque da mulher tinha a certeza que a queixa nunca partiria. Por uma razão: MEDO!

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Tuesday, November 27, 2007

REVISITANDO A HISTÓRIA…

As desigualdades que, ao longo dos séculos, por toda a História, existiram entre Homem e Mulher, levaram a que, ainda hoje, a violência contra as mulheres dentro e fora do seu círculo familiar, se mantenha, de uma forma que pode não ser mais violenta do que há uns tempos, ou mesmo anos atrás, mas é, com certeza, mais visível e, por isso mesmo, mais denunciada.

Vou citar frases de  três Homens da História mundial. Aristóteles, filósofo grego do Séc. IV a.C.; Lutero, teólogo alemão do Século XVI e Hegel, também alemão, filósofo e historiador do séc. XIX.

É de  Aristóteles a frase: “A Natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens. A mulher é, portanto, um homem inferior”.

Quanto a Lutero, ia um pouco mais longe: “O pior adorno que uma mulher pode querer usar, é ser sábia”.

Finalmente Hegel: “A mulher pode ser educada, mas a sua mente não é adequada às Ciências mais elevadas, à Filosofia e a algumas das Artes”.

Não serão estas frases portadoras de uma grande violência?

Em Roma, no fim da República e no início do Império, as mulheres dos homens públicos eram tratadas como seres periféricos. Eram tratadas como criaturas menores e o seu comportamento e relação com os maridos não tinham qualquer interesse para o mundo masculino. A relação matrimonial, em si, pouco peso tinha na vida pública.

Aquilo a que chamamos de “emancipação” das mulheres da classe alta de Roma, por exemplo, foi essencialmente uma liberdade nascida do desdém. Estas “criaturas menores”, como eram chamadas, podiam fazer o que quisessem, desde que não interferissem com o jogo sério da política masculina.

Plutarco escreveu sobre a forma como o marido devia usar conselhos pessoais hábeis, próprios de um filósofo, para levar a esposa a conformar-se com o comportamento público  do seu  homem de classe superior.

Não seria este um ambiente de grande violência?

E que dizer da chamada Idade Média? Philippe Ariès e Georges Duby, os grande historiadores da vida privada, não deixam de nos alertar para a vida intelectual dessa época.
Instruir os jovens, em pleno medievalismo, era afinal uma tarefa absorvente que mobilizava muita gente.
Para os rapazes, claro. Primeiro o pai, até cerca dos sete anos, mas depois os professores, vários, cuidadosos, chegando a uma meia dúzia, para que não faltásse conhecimento ao jovem. Matemática, Latim e Gramática, etc.

Cito mesmo uma frase da “História da Vida Privada”  dos referidos autores:

“As pessoas que rodeiam um jovem, sobretudo se este é brilhante, não fazem nunca o bastante pelo seu futuro.”

Claro que na educação das raparigas as famílias mostravam-se bem menos ambiciosas.

A instrução feminina foi calorosamente discutida, por volta de 1340, 1350, e muitos moralistas lhe foram hostis.

Aos doze anos acabava-se a pouca liberdade das meninas. O pudor tinha as suas exigências.

Francesco Barbaro que escreveu várias obras consagradas ao casamento e à educação, insistia no seguinte:

“Futura mãe, futura educadora doméstica da moral e da fé, futuro modelo para as suas filhas, a adolescente deve ser educada por santos ensinamentos, no sentido de levar uma vida regular, casta, religiosa e de se entregar constantemente a trabalhos femininos, entremeados por orações.”

Não seria esta distinção entre géneros uma forma de violência?

Enfrentar sozinha o mundo exterior não era fácil para uma mulher, sobretudo jovem e sobretudo rapariga. A opinião pública apoiava os moralistas que defendiam que se deviam vigiar as mulheres.

Não resisto a fazer uma última citação: “A mulher é coisa vã e frívola. Se tens mulheres em casa vigia-as de perto; vai de vez em quando a casa e mesmo trabalhando nas tuas ocupações, mantén-nas na apreensão e no receio. Que a mulher imite a Virgem Maria, que não saía de casa para conversar à esquerda e à direita, para deitar os olhos aos belos senhores e para escutar vaidades. Não! Ela ficava fechada, guardada, no segredo de uma casa, como deve ser!” Assina o moralista Paolo da Certaldo.

A história das mulheres é, tal como afirma Pierre Bourdieu, uma relação de dominação.

É constante, pelo menos ao nível das representações, a dominação masculina.

São estes e muitos outros factores culturais e sociais que levam a que , ainda hoje, se mantenham as desigualdades que  conduzem a situações de dominante e de dominada, de agressor e de vítima.

Ao longo da História foi assim. No presente. O nosso presente, ainda é assim.
Não só é preciso dizer BASTA é preciso contribuir para que este tipo de situações acabem, definitivamente. Para que com elas se não escrevam mais páginas de História…

Posted by idferreira at 14:08:47 | Permalink | No Comments »

CINCO MINUTOS NA RÁDIO…

Todas as segundas-feiras, já lá vai quase um ano, a RDP apresenta um pequeno espaço sobre o problema da violência doméstica.
Entre as 2 e as 3 da tarde, eu e a Filomena Crespo, tentamos alertar, sensibilizar, esclarecer.
Muitas vezes, é a partir dos telefonemas e dos emails que os/as ouvintes nos fazem chegar, que trabalhamos conteúdos, tentando dar resposta e ajuda a quem a pede.
Hoje aqui ficam os nossos emails:
violencia.domestica@programas.rdp.pt ou então
violencia@clix.pt

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Sunday, November 25, 2007

ESTRANHA FORMA DE VIDA!…

São mulheres iguais a todas as outras. Ou parecem iguais. Porque, de uma forma geral, escondem para elas a vergonha, o medo, a desilusão, a desesperança.

São vítimas de violência doméstica.

Quando conseguem ter coragem e contar como é triste e dramático o seu quotidiano, fixam o olhar num ponto invisível do infinito e dizem dolorosamente que não sabem como é que “aquilo” começou.

Terão sido os primeiros silêncios e as feições mais cerradas com que ele chegava a casa depois de um dia de trabalho? Terá sido na primeira noite em que o filho, ainda pequeno, não parava de chorar e ele gritou um “Já estou farto deste choro! Vê se o calas, senão…”, ou terá sido quando lhe pediu a camisa de riscas azuis, para ir jantar com os amigos, e ela ainda a não tinha passado a ferro?

Recordam as frases duras e sarcásticas, depois os empurrões, a seguir as bofetadas, os murros.

Lembram-se que vinha depois o arrependimento. Por vezes chegavam a chorar quando lhes pediam desculpa.

Sol de pouca dura. Semanas depois as mesmas cenas repetiam-se. Meses, anos assim.

E elas a definhar. A esconder dos filhos, enquanto podiam. Da família, dos vizinhos, dos amigos.

O isolamento ia crescendo. O medo também. A angústia, nem se fala. Quando o ruído da chave na porta de entrada anunciava a chegada do marido era como se o chão lhes fugisse debaixo dos pés. O estômago dava-lhes voltas e voltas. As mãos gelavam. A saliva secava-se-lhes na boca. Ele chegava, elas já sabiam para quê!…

São assim, quase sempre, os relatos dessas muitas mulheres com quem nos cruzamos na rua. Ao lado de quem nos sentamos nos transportes públicos. Colegas de serviço, de convívio quase diário.

Estranha forma de vida…

Segundo o Conselho da Europa, entre 12 a 15% das mulheres são vítimas de violência doméstica.

Neste 25 de Novembro de 2007 crio este blogue num grito de alerta, mas também para, com a minha experiência profissional poder ajudar todas as mulheres, crianças, jovens, os mais velhos e as mais velhas que vivem, em casa, o terror da ameaça e do medo da agressão.

Hoje é o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a MulherSegundo o Conselho da Europa, entre 12 a 15% das mulheres são vítimas de violência doméstica.

Posted by idferreira at 23:07:03 | Permalink | Comments (1) »

O QUE É A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA?

É a violência física, sexual ou psicológica que ocorre em ambiente familiar.
São as más palavras, bofetadas, murros, encontrões.
É obrigar a mulher a ter relações sexuais contra a sua vontade.~
São os maus tratos inflingidos aos filhos. às pessoas mais velhas e, por isso, mais vulneráveis.
A violência doméstica não é, como se sabe,  apenas exercida contra as mulheres, e apesar de haver também homens vítimas de violência doméstica a verdade é que ela é maioritariamente exercida contra as mulheres.

Posted by idferreira at 22:58:11 | Permalink | No Comments »