Dina Maria enviou este “Grito de Alerta” que é o texto que se segue. No mail diz: Esta é uma história que eu vivi, ninguem me contou!
Obrigada, Dina.
Conheci Mariana numa noite muito fria de inverno, nas urgências de um centro de algures perto de todos nós. Eu chorava baixinho, completamente descompensada, depois de vários dias com terríveis dores de cabeça. A presença dela não se notava, de cabeça baixa, mãos que se enroscavam nervosamente sobre o colo, roupa escura… chamaram-me antes dela, puseram-me soro e de repente comecei a bater os dentes com frio. Vi que o médico se assustava e que procurava a ajuda de outros colegas, vagamente deixei de os ouvir, de os ver de os sentir. Lembro-me da sirene de uma ambulância e de alguém que dizia, aqui não temos meios, segue já para o hospital - não pensei que estivessem a falar de mim - eu estava demasiado longe.
Acordei na manhã seguinte numa cama de hospital. Olhei para o lado e pensei, com alguma estranheza, que devia ter adormecido, afinal estava no mesmo local e ao meu lado a mesma mulher de cabeça baixa e mãos nervosas, dormia um sono agitado, chegou a parecer-me que soluçava.
Comecei pouco a pouco a tomar consciência o sitio onde estava e porque tinha ido ali parar. Mas, incrível, a cabeça não me doía, e apenas um leve zumbido nos ouvidos me incomodava.
Quis levantar-me mas não consegui. Até ver Mariana, voltar-se dolorosamente na cama. Quando ficou de frente para mim, o meu coração disparou de medo - ela tinha o lado direito do rosto tão lacerado, os olhos tão fundos, a boca de lábios secos e gretados com restos de sangue, e na cabeça, um penso quadrado, de onde todo o cabelo havia sido cortado.
Da fraqueza fiz a força e sentei-me na cama procurando os sapatos que não encontrei. Descalça, aproximei- dela e tentei segurar aquele tremor constante que me havia chamado a atenção. As mãos geladas gelaram os meus sentidos. Peguei-lhe nas mãos e comecei a tentar aquecê-las, com as minhas, enquanto com a boca soprava ar quente para as pontas dos dedos de umas mãos lindas e compridas, ainda com sangue.
Chamei a enfermeira e pedi-lhe outro cobertor. Como demorou acabei por tirar o meu da minha cama e embrulhar as mãos delas tapando-a até ao pescoço.
Continuei ao pé dela, de pés gelados, a acariciar-lhe o rosto para a tranquilizar.
Não me lembro de quanto tempo estive ali. Eu continuava com soro, não podia pedir para me verem e mandar embora, e sentia na minha alma que aquela mulher não podia ficar ali sozinha.
Com medo pensei nas pessoas que deveriam ir com ela no carro no momento do acidente.Talvez filhos, talvez crianças … onde estariam??
Por fim alguém entrou, era já dia, com o pequeno almoço. Sentei-me na cama e aqueci as mãos na chávena do café com leite. A ela acordaram-na, ajudei-a a sentar-se também, sentia que ela estava toda partida e completamente cheia de analgésicos para as dores. Depois de se terem ide embora fi-la beber o leite. Pão? Como podia ela comer pão se mal podia abrir a boca? Como quem alimenta um passarinho doente, convenci-a a comer duas bolachas. Riu-se para mim, parecia mais um esgar do que um sorriso. Nunca lhe ouvi a voz. Depois de ter conseguido que ela bebesse o leite e comesse as bolachas, voltei para a minha cama e tentei aquecer, as duas voltadas uma para a outra, de vez em quando estendendo a minha mão que não a tocava.
Finalmente alguém me deu alta. Alguns conselhos que mal ouvi. Já de saída fui até junto dela e perguntei-lhe “como se chama?” não respondeu. Insistente e teimosa como só eu, fui perguntando a A e a B o nome daquela rapariga que estava ao meu lado. Finalmente alguém me disse “Mariana” ! Respirei aliviada, pelo menos o nome já o sabia ! Sabe onde foi o acidente, onde está a família ? Aquilo não foi acidente nenhum, foi uma surra do marido, e já não é a primeira vez…. a minha vontade era voltar para trás e ficar com ela, como voltar ali mais tarde para saber noticias dela se sabia apenas o primeiro nome?? Não sou de desistir, pensei eu, hei-de conseguir. A minha família esperava-me cá fora na entrada aquecida e quase vazia do hospital. O meu pensamento não se afastava daquela figura triste e massacrada, de cara inchada e desfigurada.
Nesse dia não pude saber mais nada dela, mas no dia seguinte, hora de visitas, eu lá estava.
Pouco a pouco, falando aqui e ali, “Mariana?? Só sabe esse nome??” - com calma explicava que tinha estado com ela na véspera, que talvez ela ainda estivesse no hospital. Até que consegui - Mariana estava internada na Psiquiatria. De passo apressado e sem correr, fui directa à psiquiatria procurar Mariana. Quarto a Quarto, Cama a cama. Até que a encontrei.
Abracei-me a ela mas ela não fez um gesto. Só sorriu. Um sorriso de medo, pensei?? Sim,
devia ser um sorriso de medo.
Amanhã venho vê-la outra vez, disse-lhe baixinho, e ela levantou a mão e pó-la sobre o meu braço, num toque quase imperceptível. Parecia querer pedir-me que não, que não fosse
Foi assim durante alguns dias. Eu ia visitá-la, estava 5 minutos com ela, e deixava-a com o seu sofrimento.
Não falava, nem eu já pedia que ela falasse. Os olhar de medo e as mão que constantemente se agitavam de uma forma mais do que incansável, quase me contavam a historia daquela mulher.
Até que chegou o dia em que encontrei a cama cama vazia.
Perguntei às outras senhoras do quarto, disseram-me que tinha tido alta.
Assustada, pensei se a teriam entregue à família, ao marido. Tentei saber, de todas as formas possíveis, mas não consegui.
No fundo, acreditava que tivessem feito qualquer coisa para a manter longe do facínora que a fazia sofrer assim. Erradamente, hoje sei, não fiz mais nada se não tentar encontrá-la, sem sucesso!
Alguns dias depois, soube por acaso numa normal conversa de café, que uma mulher se tinha enforcado, com o cinto do próprio robe, porque sofria maus tratos do marido. A depressão, os maus tratos, a dificuldade em pedir auxilio, tinham acabado com a vida dela. Chamava-se MARIANA !!!!
E EU NÃO FIZ NADA PARA A AJUDAR !!!