Saturday, April 5, 2008

DAR VOZ AOS AGRESSORES…

L'histoire de Rocco est l'un des cinq témoignages du livre
Do livro “Porque batem os homens nas mulheres. Violência Conjugal: a questão”, da autoria de Aldo Rocco, extraímos o relato de um agressor.(1)
Rocco é italiano, tem 53 anos e vive em Chámbery. Bateu na sua mulher ao longo de quase 20 anos. Conta aqui partes do seu passado de marido violento. A sua “descida aos infernos”, como lhe chama. 
 

“Tudo começou há quase vinte anos atrás, numa pequena aldeia da Sicília, na região de agrinto. Durante o dia eu trabalhava numa cooperativa, à noite divertia-me com os meus amigos e namorávamos as raparigas. Nessa época eu era um pequeno machista. Conheci Teresa tinha ela 18 anos. Pouco tempo depois ficou grávida e tivemos que nos casar. Agir de uma outra maneira seria impensável nos anos 70, sobretudo na Sicília.

Lembro-me da primeira vez que lhe levantei a mão, desse momento em que me transformei num verdadeiro monstro… Voltava a casa depois de ter estado com os meus amigos numa série de bares. Ela disse-me que tinha uma “feliz novidade” para me dar. Eu tinha bebido e senti que ela me tinha envolvido numa armadilha. Esse foi o princípio da descida aos infernos. Bati-lhe. Ela perdeu o bebé. Não saberei nunca se foi por causa de mim mas ela acusa-me disso.

Os anos foram passando e a gangrena instalou-se. Continuei a bater-lhe. Sempre. (…)

Porque é que lhe batia? Eu considerava que ela era a responsável. Os meus amigos gozavam-me e brincavam com a minha situação de homem casado. Eu tinha a impressão de ter desperdiçado tudo, toda a minha vida. Queria desembaraçar-me de Teresa. Fiz de tudo para a fazer passar por um ser monstruoso aos olhos dos amigos, da família e dos nossos filhos.
A minha mulher entrou em depressão e foi, sem dúvida, essa doença que lhe salvou a vida.
Hospitalizada mais uma vez, pela centésima vez, depois de tantas e tantas outras vezes em que isso aconteceu, ela conheceu no hospital uma assistente social a quem contou todo o seu drama. Esse segredo que ela vivia há mais de uma dezena de anos.
A Máscara caiu. Eu tinha 42 anos.
De um dia para o outro senti-me como que vazio e a olhar para o que de mim restava. Ela não me perdoará jamais mas eu estou-lhe reconhecido por ter posto um termo a este ciclo vicioso.
Encontrei um padre que me ajudou e depois fiz psicanálise durante quatro anos. Aprendi muito sobre mim próprio. O meu calvário terminou há cerca de nove anos.
Teresa divorciou-se de mim e partiu para refazer a sua vida na Alemanha.
Eu vivo hoje com outra pessoa, em Chambéry e ocupo-me de pessoas idosas. Viverei para sempre com este peso na consciência.
Se hoje conto a minha história é para ajudar outros homens. Eles não o dizem mas também sofrem. A mulher sofre porque o homem lhe bate e a agride fisicamente. O homem sofre porque bate mas não sabe porque é que o faz.
Eu quero dizer aos agressores que, para se livrarem desse horror, devem falar com alguém que os possa ajudar.”


(1) Tradução livre


Posted by idferreira at 19:10:00 | Permalink | No Comments »