Tuesday, January 8, 2008

SOLIDÃO…


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QUANDO OS HOMENS TAMBÉM SÃO VÍTIMAS…

Várias e vários leitores me têm escrito a referir que a minha visão do fenómeno da violência doméstica é partidária e parcial. Porquê? Porque refiro apenas casos de violência doméstica exercida sobre vítimas do sexo feminino.

Ainda mais uma informação curiosa, ou talvez não, são sobretudo mais mulheres que homens que referem esse facto.

Não sei se já aqui escrevi que o faço, apenas, porque existe uma muito maior percentagem de casos em que as vítimas de VD são mulheres.

E é preciso alertar as consciências de todos/as para essa realidade indesmentível através dos números que se conhecem e que possivelmente nos dariam muito maior preocupação se pudéssemos ficar conhecedores das cifras negras existentes. Isto é, dos factos e dos dados que não se podem quantificar, porque se desconhecem.


Quantas queixas ficaram por fazer?

Quantas agressões tiveram lugar em espaços tão privados que foram escondidas?

Quantas mortes por VD não tiveram afinal outras “causas” determinadas?


Mas hoje vou relatar dois casos de autêntica violência doméstica em que um homem é  vítima. O caso foi divulgado nos jornais. 

Um homem foi abandonado pela companheira com quem viveu cerca de trinta anos.

Sempre se tinham dado bem até que, há cerca de ano e meio, no Verão de 2005, o sexagenário foi operado a um aneurisma, no Hospital de Santa Maria. Quando voltou para casa, estava tudo diferente. A mulher tinha ido à terra e regressado estranha. Começaram as discussões. O homem acrescenta que foi obrigado a mudar-se para o Alentejo, onde tem uma casa de família.

Uma reacção alérgica aos comprimidos que o médico prescreveu para dormir atirou o sexagenário de novo para uma cama de hospital. Entrou em coma ainda em casa. Não se recorda do que se passou depois a não ser o que os vizinhos lhe contaram: que a mulher o pôs no vão das escadas e desapareceu. Depois alguém chamou a polícia. Ele esteve internado no hospital e acordou ao fim de 12 dias em casa do irmão. Da antiga companheira nunca mais teve noticias.

O que teria levado esta mulher a tomar esta atitude?

Sejam quais forem os motivos, esta também é uma situação de violência doméstica.

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Wednesday, December 26, 2007

A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA É TEMA NA RDP…

Nas próximas segundas feiras, dias 31 de Dezembro e 7 de Janeiro, entre as 14h e as 15h, falar-se-á de violência doméstica e de todos os problemas a ela inerentes, numa rubrica de alguns minutos em “Causas Públicas”.

Para escrever ou participar nesta rubrica, ficam os emails:
violencia@clix.pt
violencia.domestica.programas@rdp.pt

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NATAL E NÃO DEZEMBRO…

O poeta escreveu, para todas as mulheres e todos os homens do Mundo…

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido…
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave…
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.


David Mourão Ferreira

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Thursday, December 13, 2007

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AS CASAS ABRIGO PARA VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA…

As CASAS ABRIGO / REFÚGIOS são unidades residenciais destinadas a proporcionar acolhimento temporário a mulheres vítimas de violência doméstica, acompanhadas, ou não, pelos filhos menores.

Oferecem

Protecção contra os parceiros violentos
Apoio e ajuda relativamente aos problemas práticos que as vítimas enfrentam ao sair de casa.
Tentam contribuir para a inserção profissional das utentes, no sentido de as conduzir à sua própria  sustentabilidade financeira e à criação de bases para uma vida independente. 

A importância da existência destas CASAS ABRIGO / REFÚGIOS é fundamental como suporte social para a ruptura do ciclo de violência doméstica.
A admissão nessas casas pode acontecer se:
O contacto directo for feito pela própria interessada, ou através dos profissionais da linha de emergência que tem o número grátis 144.
As vítimas podem ainda chegar às CASAS por indicação das instituições que trabalham esta problemática ou encaminhadas pelos serviços policiais ou entidades da Saúde.

Quando uma vítima recorre a este tipo de solução alternativa é porque corre risco de vida, daí que tenha que cumprir algumas mediads de segurança para ela e para todas as outras que residem no mesmo local. 

  • Cuidado extremo no anonimato das casas
  • Protecção e colaboração da polícia em casos de urgência.

A grande salvaguarda destas Casas Abrigo passa, efectivamente, pela discrição das próprias utentes.

O tempo médio de permanência nas Casas é de seis meses.

É urgente que cada vítima quebre este ciclo e peça apoio.
Se precisar de mais esclarecimentos, pode sempre escrever para o nosso email. Tentaremos ajudar.


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Wednesday, December 12, 2007

A VIOLÊNCIA CONJUGAL TEM CONSEQUÊNCIAS…

A violência conjugal, aquela que ocorre entre marido e mulher, entre companheiros/as, tem graves consequências pessoais para a saúde física e psíquica das vítimas e deixa-as muitas vezes numa situação de grande vulnerabilidade.

A violência conjugal pode contribuir para o desenvolvimento de determinadas patologias ou agravar mesmo alguma sintomatologia já existente.

As consequências psicológicas mais frequentes são a baixa auto-estima, sentimentos de vergonha ou de culpa, pode acontecer um estado permanente de angústia, ansiedade ou raiva. As vítimas podem sofrer de ataques de pânico, ou de fobias com graves consequências para o normal desempenho das suas actividades até profissionais, por exemplo.


No estudo “Saúde e Violência contra as Mulheres”, da Direcção Geral de Saúde, os investigadores Manuel Lisboa, Luísa Vicente e Zélia Barroso, de 2005, concluíram que a possibilidade de ocorrerem ataques de pânico é duas vezes e meia superior entre vítimas de violência, quando comparadas com não vítimas. E devemos também ter em conta que, na maioria dos casos, essas pessoas chegam ao médico em estados de depressão, confusão mental e dificuldade de concentração.

 A desconcentração pode levar a uma maior percentagem de risco de acidentes… mas também é preciso fazer referência às perturbações do sono, às disfunções sexuais e, finalmente, aos pensamentos suicidas que podem ocorrer às vítimas de violência conjugal.

São pessoas que podem também vir a sofrer de problemas ao nível da saúde reprodutiva e lesões e doenças do foro ginecológico.


Tudo isto pode ser causado ou vir a agravar-se  em vítimas de violência conjugal.


“Saúde e Violência contra as Mulheres” - Texto completo em www.dgs.min-saude.pt

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Thursday, December 6, 2007

PORQUE ASSIM FOMOS EDUCADAS/OS…

Há um exercício de poder nos lares que procura instituir uma ordem e mantê-la. Na intimidade das nossas casas haverá sempre (até quando?) a vontade do mais poderoso, definindo o andamento da vida familiar. Isto quer dizer que existe, ainda hoje, na maioria dos lares portugueses, um confronto entre fortes e fracos.
Na origem da VD está a relação de poder que se estabelece na família. Nesta relação de poder há, como já referi, uma característica presente e que pela sua importância precisa de ser analisada. Porque é que o homem se sente superior à mulher?
Porque assim foi educado!
É urgente actuar de forma a desconstruir o “discurso masculino” que estabeleceu a inferioridade física e mental das mulheres, que definiu a partilha “aos homens a madeira e os metais” e às mulheres “a família e o tecido”.

É preciso inovar na reorganização dos espaços físicos, sociais e culturais, intelectuais e científicos. Abrir caminhos novos no campo das possibilidades interpretativas dos factos do dia a dia, propor temas de investigação, formular novas problematizações, incorporar inúmeros sujeitos sociais, construir, enfim construir novas formas de pensar e de viver.

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Tuesday, December 4, 2007

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E EU NÃO FIZ NADA PARA A AJUDAR!…

Dina Maria enviou este “Grito de Alerta” que é o texto que se segue. No mail diz: Esta é uma história que eu vivi, ninguem me contou!
Obrigada, Dina.

Conheci Mariana numa noite muito fria de inverno, nas urgências de um centro de algures perto de todos nós. Eu chorava baixinho, completamente descompensada, depois de vários dias com terríveis dores de cabeça. A presença dela não se notava, de cabeça baixa, mãos que se enroscavam nervosamente sobre o colo, roupa escura… chamaram-me antes dela, puseram-me soro e de repente comecei a bater os dentes com frio. Vi que o médico se assustava e que procurava a ajuda de outros colegas, vagamente deixei de os ouvir, de os ver de os sentir. Lembro-me da sirene de uma ambulância e de alguém que dizia, aqui não temos meios, segue já para o hospital - não pensei que estivessem a falar de mim - eu estava demasiado longe.
Acordei na manhã seguinte numa cama de hospital. Olhei para o lado e pensei, com alguma estranheza, que devia ter adormecido, afinal estava no mesmo local e ao meu lado a mesma mulher de cabeça baixa e mãos nervosas, dormia um sono agitado, chegou a parecer-me que soluçava.
Comecei pouco a pouco a tomar consciência o sitio onde estava e porque tinha ido ali parar. Mas, incrível, a cabeça não me doía, e apenas um leve zumbido nos ouvidos me incomodava.

Quis levantar-me mas não consegui. Até ver Mariana, voltar-se dolorosamente na cama. Quando ficou de frente para mim, o meu coração disparou de medo - ela tinha o lado direito do rosto tão lacerado, os olhos tão fundos, a boca de lábios secos e gretados com restos de sangue, e na cabeça, um penso quadrado, de onde todo o cabelo havia sido cortado.
Da fraqueza fiz a força e sentei-me na cama procurando os sapatos que não encontrei. Descalça, aproximei- dela e tentei segurar aquele tremor constante que me havia chamado a atenção. As mãos geladas gelaram os meus sentidos. Peguei-lhe nas mãos e comecei a tentar aquecê-las, com as minhas, enquanto com a boca soprava ar quente para as pontas dos dedos de umas mãos lindas e compridas, ainda com sangue.
Chamei a enfermeira e pedi-lhe outro cobertor. Como demorou acabei por tirar o meu da minha cama e embrulhar as mãos delas tapando-a até ao pescoço.
Continuei ao pé dela, de pés gelados, a acariciar-lhe o rosto para a tranquilizar.
Não me lembro de quanto tempo estive ali. Eu continuava com soro, não podia pedir para me verem e mandar embora, e sentia na minha alma que aquela mulher não podia ficar ali sozinha.

Com medo pensei nas pessoas que deveriam ir com ela no carro no momento do acidente.Talvez filhos, talvez crianças … onde estariam??

Por fim alguém entrou, era já  dia, com o pequeno almoço. Sentei-me na cama e aqueci as mãos na chávena do café com leite. A ela acordaram-na, ajudei-a a sentar-se também, sentia que ela estava toda partida e completamente cheia de analgésicos para as dores. Depois de se terem ide embora fi-la beber o leite. Pão? Como podia ela comer pão se mal podia abrir a boca? Como quem alimenta um passarinho doente, convenci-a a comer duas bolachas. Riu-se para mim, parecia mais um esgar do que um sorriso. Nunca lhe ouvi a voz. Depois de ter conseguido que ela bebesse o leite e comesse as bolachas, voltei para a minha cama e tentei aquecer, as duas voltadas uma para a outra, de vez em quando estendendo a minha mão que não a tocava.

Finalmente alguém me deu alta. Alguns conselhos que mal ouvi. Já de saída fui até junto dela e perguntei-lhe “como se chama?” não respondeu. Insistente e teimosa como só eu, fui perguntando a A e a B o nome daquela rapariga que estava ao meu lado. Finalmente alguém me disse “Mariana” ! Respirei aliviada, pelo menos o nome já o sabia ! Sabe onde foi o acidente, onde está a família ? Aquilo não foi acidente nenhum, foi uma surra do marido, e já não é a primeira vez…. a minha vontade era voltar para trás e ficar com ela, como voltar ali mais tarde para saber noticias dela se sabia apenas o primeiro nome?? Não sou de desistir, pensei eu, hei-de conseguir. A minha família esperava-me cá fora na entrada aquecida e quase vazia do hospital. O meu pensamento não se afastava daquela figura triste e massacrada, de cara inchada e desfigurada.
Nesse dia não pude saber mais nada dela, mas no dia seguinte, hora de visitas, eu lá estava.
Pouco a pouco, falando aqui e ali, “Mariana?? Só sabe esse nome??” - com calma explicava que tinha estado com ela na véspera, que talvez ela ainda estivesse no hospital. Até que consegui - Mariana estava internada na Psiquiatria. De passo apressado e sem correr, fui directa à psiquiatria procurar Mariana. Quarto a Quarto, Cama a cama. Até que a encontrei.
Abracei-me a ela mas ela não fez um gesto. Só sorriu. Um sorriso de medo, pensei?? Sim,
devia ser um sorriso de medo.

Amanhã venho vê-la outra vez, disse-lhe baixinho, e ela levantou a mão e pó-la sobre o meu braço, num toque quase imperceptível. Parecia querer pedir-me que não, que não fosse
Foi assim durante alguns dias. Eu ia visitá-la, estava 5 minutos com ela, e deixava-a com o seu sofrimento.
Não falava, nem eu já pedia que ela falasse. Os olhar de medo e as mão que constantemente se agitavam de uma forma mais do que incansável, quase me contavam a historia daquela mulher.
Até que chegou o dia em que encontrei a cama cama vazia.
Perguntei às outras senhoras do quarto, disseram-me que tinha tido alta.
Assustada, pensei se a teriam entregue à família, ao marido. Tentei saber, de todas as formas possíveis, mas não consegui.
No fundo, acreditava que tivessem feito qualquer coisa para a manter longe do facínora que a fazia sofrer assim. Erradamente, hoje sei, não fiz mais nada se não tentar encontrá-la, sem sucesso!

Alguns dias depois, soube por acaso numa normal conversa de café, que uma mulher se tinha enforcado, com o cinto do próprio robe, porque sofria maus tratos do marido. A depressão, os maus tratos, a dificuldade em pedir auxilio, tinham acabado com a vida dela. Chamava-se MARIANA !!!!
E EU NÃO FIZ NADA PARA A AJUDAR !!!
  

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